segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mulheres sauditas se dividem quanto a liberdades

Mulheres sauditas se dividem quanto a liberdades

Por KATHERINE ZOEPF - The New York Times - Folha de S. Paulo - 12/07/2010

Rob Griffth/Associated Press
Homens e mulheres formam escultura humana em praia australiana; muitos países ainda lutam para oferecer igualdade de direitos às mulheres, mas no Oriente Médio há quem rejeite essa hipótese

JIDDA, Arábia Saudita - Aproximadamente dois anos atrás, Rowdha Yousef começou a notar uma tendência perturbadora: mulheres sauditas como ela estavam organizando campanhas por mais liberdade pessoal.
Ela ficou especialmente surpresa no ano passado, quando leu reportagens sobre uma ativista do leste da Arábia Saudita, Wajeha al Huwaider, que foi à fronteira com Bahrein e pediu para atravessar usando só seu passaporte, sem um acompanhante homem ou a autorização por escrito de um guardião.
Huwaider não teve permissão para deixar o país desacompanhada e, como outras mulheres sauditas que fazem campanha por novos direitos, não conseguiu -até agora- mudar as leis ou os costumes vigentes.
Mas Yousef continua revoltada, e em agosto passou a atacar as ativistas com as mesmas armas. Com outras 15 mulheres, iniciou a campanha "Meu guardião sabe o que é melhor para mim". Em dois meses elas haviam reunido mais de 5.400 assinaturas em um abaixo-assinado, pedindo "punições para aqueles que pedem igualdade entre homens e mulheres, a mistura de homens com mulheres em ambientes mistos e outros comportamentos inaceitáveis".
A luta de Yousef contra as supostas liberalizadoras faz parte de uma polêmica maior na sociedade saudita sobre os direitos das mulheres, que subitamente tornou o fator feminino uma questão importante para reformistas e conservadores que lutam para moldar o futuro da Arábia Saudita.
Yousef, 39, divorciada e mãe de três crianças (de 13, 12 e nove anos), é mediadora voluntária em casos de agressão doméstica. Uma mulher alta e confiante, com modos efusivos e sandálias de salto alto brilhantes, sua conversa abrange do racismo no reino (Yousef tem ascendência somali e chama a si mesma de saudita negra) a sua admiração por Hillary Clinton e às agressões que ela diz ter sofrido nas mãos das liberais sauditas.
Ela acredita que a maioria das sauditas compartilha seus valores conservadores, mas insiste em que a adesão à sharia (lei islâmica) e aos costumes familiares não precisa restringir a mulher que quer ter voz ativa. As ativistas no campo das reformas, ela diz, são influenciadas por ocidentais que não compreendem as necessidades e as crenças das sauditas.
"Esses grupos de direitos humanos vêm e só escutam um lado, o das que pedem liberdade para as mulheres", ela disse. Toda mulher saudita, independentemente da idade ou da posição social, deve ter um parente homem que atue como seu guardião e tenha responsabilidade e autoridade sobre ela em uma série de questões legais e pessoais.
Yousef, cujo guardião é seu irmão mais velho, diz que ela desfruta de grande liberdade enquanto respeita as regras de sua sociedade. Ela diz que pôde começar sua campanha, por exemplo, sem pedir a permissão de seu guardião.
O esforço de Yousef pode parecer supérfluo. Afinal, as mulheres sauditas ainda não podem dirigir carros ou votar e são obrigadas a vestir mantos até os pés, conhecidos como abayas, e lenços na cabeça fora de casa.
As mulheres não podem comparecer ao tribunal e, embora possam se divorciar por meio de breves declarações verbais de seus maridos, frequentemente acham difícil obter o divórcio elas mesmas. Os pais podem casar filhas de dez anos, prática defendida pela mais alta autoridade religiosa, o grande mufti Abdul Aziz al Sheikh.
A separação de gêneros na vida pública saudita é radical -há lojas só para mulheres, filas só para mulheres nos restaurantes de fast food e escritórios só para mulheres em empresas privadas.
Membros da hai'a, o Comitê para Propagação da Virtude e Prevenção do Vício, um órgão governamental, patrulha para garantir que não ocorra a ikhtilat, ou "mistura" dos sexos.
Enquanto conservadoras como Yousef atribuem a recente mobilidade das ativistas pró-direitos à influência ocidental, as liberais dizem que o próprio rei Abdullah apoia cautelosamente mais liberdade para as mulheres sauditas.
O rei de 85 anos apareceu em jornais ao lado de mulheres sauditas com o rosto descoberto, uma situação que antes seria inimaginável. No ano passado, ele indicou uma mulher para um cargo de vice-ministra.
O xeque Ahmad al Ghamdi, chefe do ramo de Meca do Comitê para Propagação da Virtude e Prevenção do Vício, causou sensação quando disse ao jornal "The Okaz" que a mistura de gêneros faz "parte da vida normal". Já o xeque Abdul Rahman al Barrak emitiu, em fevereiro, uma "fatwa" pedindo a morte dos defensores da mistura de gêneros.
Hatoon al Fassi, professora-assistente de história das mulheres na Universidade Rei Saud, em Riad, disse que a mudança será lenta. "As pessoas passaram a vida inteira fazendo uma coisa e acreditando em uma coisa, e de repente o rei e os principais religiosos estão dizendo que misturar-se é certo", disse Fassi.
Huwaider, a que foi criticada ao tentar atravessar a fronteira de Bahrein, concordou com a alegação de que a maioria dos homens sauditas "se orgulha de seu cavalheirismo". "Mas é o mesmo tipo de sentimento que eles têm pelas pessoas deficientes ou por animais", disse Huwaider.
Em um blog, Eman Fahad, 31, uma estudante de linguística, chamou a campanha de Yousef de um esforço para "se opor às mulheres que exigem ser tratadas como adultas".
Mas Fahad admitiu que a maioria das sauditas prefere a tradição. "Se você realmente conversar com as pessoas comuns", inclusive em seu círculo, disse, "verá que a maioria quer que as coisas fiquem como estão".

Gilberto Freyre

Retrato do sociólogo quando jovem

Confissões de Gilberto Freyre


Retrato de Gilberto Freyre por Paulo Pasta (óleo sobre tela)

resumo
"De Menino a Homem", volume inédito de memórias, revela as circunstâncias da gestação de "Casa-Grande & Senzala" (1933), obra-prima de Gilberto Freyre, durante temporada passada nos Estados Unidos, bem como suas impressões do ambiente intelectual brasileiro no século 20 e confidências sexuais e familiares do autor.

FABIO VICTOR
ilustração PAULO PASTA
EM 1931, QUANDO RECEBEU GILBERTO FREYRE como professor visitante, a Universidade Stanford era, no dizer dele mesmo, uma escola de estudantes "ricos, eugênicos e belos", "talvez a mais aristocrática dos Estados Unidos, então", e abrigava "a maior Brasiliana da época em qualquer parte dos Estados Unidos ou, talvez, do mundo", organizada pelo reitor ?John Casper Branner, geólogo e brasilianista.
Freyre tinha 30 anos. Vinha de Lisboa -onde se exilara depois da a Revolução de 30 e "por vezes, passara fome"- a convite do professor Percy Alvin Martin, que, a crer no convidado, avaliou como "obra-prima" a tese que o jovem acadêmico defendera em 1922 na Universidade Columbia, "Vida Social no Brasil nos Meados do Século 19".
Para quem foi alfabetizado em inglês, formou-se em artes em Baylor, no Texas, pós-graduou-se em Columbia e acabava de passar por um aperto em Portugal, o novo ambiente causou encanto súbito e ajudou a produzir grandes coisas. Se foi em Lisboa que Freyre teve a ideia de escrever "Casa-Grande & Senzala", Stanford seria o laboratório e nascedouro da obra, lançada em 1933.
"Os programas que comecei a elaborar para os dois cursos que iria professar se tornariam os primeiros esboços desse futuro livro", relata Freyre no inédito "De Menino a Homem" [Global, 256 págs., R$ 59], que sai às vésperas da Festa Literária Internacional de Paraty. O sociólogo pernambucano é o homenageado da Flip neste ano, de 4 a 8 de agosto.
Num tom memorialista, próximo ao de um diário, o livro abrange histórias de 1930 ao início dos anos 80. É a continuação de "Tempo Morto e Outros Tempos" (1975), memórias da adolescência e primeira juventude, que cobrem de 1915 a 1930. Reúne fac-símiles de cartas e cartazes, um anexo com artigos de jornal escritos por Freyre e um álbum de fotografias.

DE VOLTA Ao deixar a universidade californiana, Freyre conta que "Casa-Grande & Senzala" já estava "nas suas bases, estruturado". De volta ao Brasil, o amigo Rodrigo Mello Franco de Andrade lhe consegue como editor o poeta Augusto Frederico Schmidt, com quem Freyre travaria uma "dura e humilhante" batalha para receber os adiantamentos.
"Um teste severo para um pernambucano sem vocação de pedinte de favores. O que eu entendia era haver um contrato. Que esse contrato me dava direitos", conta ele. "Mais de uma vez, entretanto, ao ir à livraria do editor, notei que Schmidt procurava esconder o vasto corpanzil atrás de um não de todo pequeno cofre, com o caixeiro dizendo-me estar o Sr. Schmidt ausente."
Os originais de "Casa-Grande & Senzala" foram datilografados pelo artista plástico Luís Jardim. Os leitores seguintes foram Manuel Bandeira e Rodrigo M. F. de Andrade, segundo Freyre "dois amigos que de início se mostraram de todo identificados com a obra para eles originalíssima". No embarque do vapor que levou os originais do Recife para o Rio, parte das páginas caiu no mar. Não havia cópia, e "recuperou esses originais um bom marinheiro".
Um festão celebrou o que Freyre define como "êxito imediato do livro": "Nunca, numa festa do Recife [...] correu tanto champanhe. [...] Nem houve tanto descontraído abraçar e beijar".

BRILHO NOS OLHOS Já que a modéstia nunca foi o forte do autor, a obra é por demais autorreverente. Freyre muitas vezes fala de si na terceira pessoa. Numa passagem, conta que, apoiado na teoria de um psicólogo americano que identificaria os gênios pelo brilho dos olhos, o tal professor Martin lhe tomou por um. "Confessou-me [...] ter se impressionado com o brilho dos meus olhos. Confirmavam suas suspeitas."
No ambiente político polarizado da ditadura de 1964-85, no entanto, não havia quem enxergasse brilho nos olhos do sociólogo. Ele se queixa da pouca repercussão de sua obra no Brasil, fruto, diz, do "patrulheirismo" que vigorava em "semanários e jornais", na forma de "silêncios como que articulados, coordenados, sistemáticos" -e combate as "agressões intelectuais" sofridas, citando Nelson Rodrigues, outro que enfrentava o isolamento.
Criticado também na academia, Freyre (contra-)ataca a USP, onde Florestan Fernandes encabeçava uma sociologia científica oposta às ideias do pernambucano. Repele o "submarxismo sectariamente ideológico" dos colegas paulistas, mas faz uma exceção: "O que de modo algum inclui um marxista do tipo de Fernando Henrique Cardoso". FHC fará a conferência de abertura da Flip, sobre a obra de Freyre, debatendo com o historiador Luiz Felipe de Alencastro.
O livro inédito traz também comentários sobre as experiências políticas do intelectual, como o mandato de deputado federal constituinte em 1946 e a recusa ao convite de Getúlio Vargas para integrar seu governo, em 1937. O autor diz ter sido informado, depois da recusa, de que Vargas queria fazê-lo ministro da Educação "e, na época, creio que também de Saúde". O ditador, diz Freyre, fechou a cara. "Mas concordou em nomear um obscuro cunhado meu para fiscal de consumo."
A experiência em Stanford na concepção de "Casa-Grande & Senzala", assim como o acabamento e a recepção à obra, dominam "De Menino a Homem", ao lado de confidências sobre sexo, religião e família, contadas sem o menor embaraço.

EFEBOS Freyre se gaba de suas conquistas, como a "linda californiana" que conheceu em Stanford ("Fez-me [...] um elogio sensibilizador: que, como latino, eu sabia agradar mulheres, um modo, para ela, nem sempre dos jovens anglo-saxões"), e as experiências homossexuais que teve quando jovem, "sempre rarissimamente, com efebos que teriam se oferecido a mim".
Refere-se a "dois casos, rápidos e experimentais, por pura iniciativa deles", em Oxford -"Tão nórdicos, eles, como o de meu caso na Alemanha". Alude aí ao episódio com um jovem michê na Berlim de 1922. "Eu próprio, diante de lindo efebo louro, não resistira aos seus encantos. Deixara-me masturbar por ele, com Vicente do Rego Monteiro servindo de tapume."
Ao elogiar a culinária de San Francisco, observa que a comida confere feminilidade à cidade. "E como que acentuava, nas californianas, seu 'sex appeal'. Sexo e paladar andam, por vezes, juntos. Mulher que não se interessa por culinária dá ideia de não ser de todo 'sexy'."

CONVERSANDO COM DEUS Freyre conta que sua formação religiosa deixou de ser "convencionalmente católica romana, para tomar aspectos individualmente protestantes ou evangélicos". À sua maneira, mostra preocupações com "essa questão da linguagem em que o homem se comunica com Deus", considerada "de uma extrema importância".
Preferia rezar numa liturgia própria. "Quando, conversando com Deus, abordo assuntos sexuais, que palavras uso para designar fatos dessa espécie? Só as eruditas? Só as elegantes? Só as cerimoniosas?", indaga-se.
"Devo dizer que não. Por vezes, decido que Deus prefere que, como seu íntimo, seu amigo, seu confidente, os termos relativos a coisas de sexo sejam os cotidianos e até, dentre os cotidianos, os mais crus. Caralho, por exemplo. Não há sinônimo [...] que diga o que diz. [...] O mesmo quanto a foda: foda é foda. Boceta é boceta. Enrabar é enrabar."
O escritor é menos cru ao falar dos pais (mais da mãe, Francisca, que do pai, Alfredo), do irmão Ulysses, do casamento com Magdalena, "a esposa certa, ideal, materna", e do primeiro amor adolescente, Dulce Ribeiro de Brito.
"De Menino a Homem" termina de forma abrupta, com o relato, "quase de teatro de Ionesco", de um episódio com a baronesa de Estrela, personalidade do Império (1822-89) que colaborara com depoimentos para livros anteriores do escritor. Ela teria levado o sociólogo a seu "apartamento íntimo" em Copacabana, fazendo-o comprovar como seus peitos eram "duros, eretos e jovens".
Tratava-se de uma mulher bonita. E, assim como outros amantes mencionados no livro, tinha um atributo que costumava encantar Freyre: a baronesa era loura.

O fantasma da Itália


Culto à imagem de Mussolini assombra democracia no país

*Renato Grandelle* O Globo - 10/07/2010


Benito Mussolini foi assassinado há quase 65 anos, mas seu fantasma ainda ronda a Itália. Imagens e frases do ditador fascista são tema de provas, discursos e pôsteres. O fenômeno não é novo, mas ganhou fôlego este ano e nas últimas semanas se tornou evidente. O Duce, como era conhecido, foi citado por Silvio Berlusconi justamente em uma ocasião em que o premier quis negar a fama de poderoso e ganhou outra menção polêmica no vestibular nacional, duas semanas atrás. Em uma questão da prova de italiano, os alunos eram instruídos a analisar uma frase em que ele tecia elogios à juventude. Imagens de Mussolini não são raras no centro histórico romano. Dezenas de bancas dedicadas à venda de souvenires, como cartões postais e miniaturas do Coliseu, incluíram em seu catálogo pôsteres de Mussolini. E um aplicativo de iPhone com os discursos do ditador está entre os mais baixados. O fantasma fascista assusta, mas não surpreende os historiadores. Tratase de uma nova guinada no volúvel relacionamento da Itália com seu antigo líder. Já no fim da Segunda Guerra, Mussolini foi tirado do poder e fuzilado por guerrilheiros da Resistência. A imagem de um país que bateu de frente com o ditador permeou as décadas seguintes, mas enfraqueceu nos anos 70, quando novas pesquisas mostraram uma sociedade que, em boa parte, respaldou os crimes do ditador. As décadas seguintes trouxeram a globalização e, com ela, um Estado nacional cada vez mais frágil. A chegada de imigrantes do norte da África e do leste da Europa expuseram a crise de identidade do país. Saudosistas e intolerantes refugiam-se na busca de um tempo mais altivo e guerreiro. Não raro, recorrem à imagem de Mussolini. Boa parte dos movimentos autoritários nutre-se da imagem de um Estado nacional perturbado com a circulação das populações ressalta Maurício Parada, professor de História Contemporânea da PUC-Rio e organizador do livro Fascismos: conceitos e experiências. As fraturas do cenário político italiano e a crise da identidade cultural explicam por que imagens de Mussolini podem ser compradas no meio da rua. Por enquanto, a fala grossa da extrema direita não provoca mais do que espasmos. Parada acredita que a democracia italiana é sólida demais para rachar diante de invocações ao Duce. A socióloga italiana Simonetta Falasca Zamponi, autora de Espetáculo fascista: a estética do poder na Itália de Mussolini, concorda com o colega brasileiro. O revisionismo sobre Mussolini acontece já há alguns anos. Faz parte da guinada à direita da política e cultura italianas, uma reação contra a Resistência e seus mitos analisa. Sobre o futuro, é difícil prever, mas me parece que as condições históricas atualmente são diferentes demais daquelas vistas logo após a Primeira Guerra Mundial para que um fenômeno como o fascismo possa se repetir. Ainda assim, a polêmica presença do ditador ganhou força com dois golpes seguidos. O primeiro veio ainda em maio, quando um repórter perguntou a Berlusconi se os governos nacionais não perderam parte de sua soberania, visto que suas decisões para conter a crise econômica não foram acatadas pelo mercado. O primeiro-ministro lembrou-se imediatamente de uma frase do diário de Mussolini obra de que é entusiasta. Eu não tenho nenhum poder, disseram ambos. O fascista ainda completou: Talvez tenham os líderes, mas eu não. Posso decidir se o cavalo vai para a direita ou a esquerda, mas nada mais. Berlusconi me parece ser um emérito ignorante em termos históricos, e não creio que entenda o que de fato foi o fascismo condena Simonetta. Ele é claramente atraído pela perspectiva de um poder que não possa ser questionado. Mussolini, com esta frase, diz que o poder não está concentrado em sua figura, mas que ele é o meio para o poder se realizar alerta Parada. Esta é a síntese de um projeto autoritário, porque todas as outras alternativas de organização, como partidos e sindicatos, são eliminadas. Quando Berlusconi a lembra, manifesta um desejo de autoridade. Duas semanas atrás, Mussolini emplacou outra pérola, desta vez na prova de italiano do vestibular nacional. Um dos exercícios exigia a análise de quatro frases, todas sobre o papel dos jovens na História e na política. Assinavam as citações, além do ditador, o comunista Palmiro Togliatti, o democrata cristão Aldo Moro e o Papa João Paulo II. Comparar ideólogos tão diferentes, para historiadores ouvidos pela imprensa italiana, não é problema. O que provocou o debate foi a frase escolhida para representar o Duce. A citação, retirada do contexto original, pertencia a um discurso em que Mussolini versava sobre o assassinato do deputado socialista Giacomo Matteotti, sequestrado e morto em 1924, três semanas após denunciar o Estado policial na tribuna do Parlamento. Aqueles que não conseguem associar (a frase) ao contexto histórico de opressão podem reter-se na retórica com que Mussolini usou o conceito de juventude alertou o historiador Claudio Pavone, em reportagem do jornal La Repubblica. Colocar aquela frase e outras citações sob um título genérico me parece um modo perigoso de despolitizar o fascismo. E o risco de que o aluno não associe o discurso à ocasião é grande, segundo Simonetta: Infelizmente a juventude não sabe muito sobre o fascismo, assim como eu não sabia quando era jovem. Esta sempre foi uma grande falha do ensino italiano. Dependemos da qualidade do sistema escolar para saber quantos reagiriam à retomada de um sistema político semelhante ao de Mussolin